Jayla Venancio

Queen Sugar: uma família pra chamar de sua

14:02:00



   Depois de assistir várias séries de comédia e ação, você quer dar uma sossegada da adrenalina. Coração acelerado, e emoções acaloradas acompanhando séries, nos torna não só viciados em série mas também viciados em “reagir as séries” rs. Não entendeu? Vou explicar.

Você passa meses a fio acompanhando Breaking bad. Se apaixona pelo Walter White, se assusta quando ele abraça a produção de drogas ilícitas, ri do ex-aluno burro que se torna sócio/traficante dos cristais azuis mais puros, se apaixona pelo Gus Fring e fica irritado com todos os inimigos do protagonista, mesmo que a linha de produção dele tenha saído do controle e se tornado uma rede de tráfico gigante. Quando a série acaba, você se torna órfão de uma série cativante. Mas também quer paz, tranquilidade, porque sabe que se ver uma série policial por exemplo, vai odiar e enjoar. Então é ai que o viciado em série procura algo “clean”. Lhes apresento Queen Sugar.


   O próprio nome diz, uma série doce. Tão viciante, e ao mesmo tempo tão apaixonante. Nada de adrenalina, carros, tráfico de drogas, e violência, mas muito amor e fraternidade.

A série conta a história de três irmãos que herdaram um lote de terra pequeno próprio para plantio de cana de açúcar. Os três andavam afastados devido as adversidades da vida, isso acontece até nas melhores família. A gente cria rotinas, estuda e trabalha, o tempo que resta é pra descansar. Não cabe família aí.

Mas apesar das diferenças, eles aprendem a lidar um com o outro. São três irmãos de realidades diferentes, então compreender a luta do outro, e reconhecer o próprio privilégio demanda tempo e muita paciência.


   Uma das herdeiras, abre mão do luxo e riqueza da cidade grande, pra investir no próprio moinho de cana de açúcar e entrar para a história como a primeira mulher negra empreendedora no ramo do agronegócio. Você deve estar se perguntando o porque deste spoiler não solicitado. Não contei por malícia, contei para aguçar a sua curiosidade: a área rural onde se encontra esse lote de terra é dominada por pequenos agricultores negros que lutam para ter uma sobrevivência digna. Metade das terras pertence a esses agricultores negros, e a outra metade pertence a uma família só, constituída por brancos. De novo, calma, não estou sendo racista reversa, eu juro.

A família constituída de brancos, descende de uma geração de donos de escravos, e os negros tentando sobreviver com seu cultivo limitado são descendentes dos escravos que se libertaram dessa família. Tudo está interligado, e tudo tem um contexto histórico e social.

Consequentemente, os meios agrícolas de “tratar” da cana retirada da terra, são de propriedade dessa família descendente de donos de escravos, o que monopoliza toda a região rural ali presente, fazendo com que a maior parte do lucro e da economia local se concentre nas mãos dessa família. E é aí que entra uma das nossas protagonistas, a herdeira que tenta construir seu próprio moinho, para poder redistribuir os lucros para a comunidade negra. Tudo muito bem calculado em torno do drama familiar que é narrado em toda a série.


   Claro que a série não conta só a história da herdeira rica, também conta a história do herdeiro ex-presidiário tentando se ressocializar e da herdeira ativista do movimento negro e jornalista que usa das mídias para expor as injustiças raciais.

Tudo é tratado de forma muito simples, emocional e realista. A história não é real, mas as vivências apresentadas são. As desigualdades também. Então isso, por si só, já se torna um grande motivo para assistir.

   Outra informação importantíssima a acrescentar é o fato de as criadoras e produtoras da série são Ava DuVernay e Oprah Winfrey. Pra quem não sabe quem é Ava, ele é diretora do filme lendário Selma, que narra um pouco da luta de Marthin Luther King. A sensibilidade do filme é sentida na série, o que a torna simplesmente uma série de família, tranquila, apaixonante e viciante. Algo pra se ver depois daquele dia cansativo, quando você quer relaxar na sala com a família.


   Pra finalizar, cito meu crescimento pessoal após assistir esta série: minha consciência de comunidade. Coisa que antes eu só tinha ouvido falar em livros, passei a ver em uma série. Visualizar, entender que nossos pequenos atos podem afetar um coletivo. Essa consciência é humana demais!

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