Jayla Venancio

Chewing Gum, a melhor série de humor que você vai assistir!

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   Não é comum encontrar séries que retratam de forma tão expressiva e ao mesmo tempo velada, a necessidade de mulheres de buscar se encaixar em um padrão. Padrão este, tão dito por tantas revistas femininas no século 21, inatingível, por se tratar de padrões inexistentes. Não é novidade pra ninguém, que até as modelos mais magras são editadas em photoshop, para atrair a atenção do público feminino e assim vender uma marca. O que estou falando não é ideologia feminista, é uma realidade apenas.

Todos admitem alimentar uma imagem ilusória, todos reconhecem que o foco é atingir um padrão inatingível, e todas as mulheres buscam trabalhar a própria imagem perante o espelho. Meninas são bombardeadas desde cedo, e incentivadas pelos próprios pais a aprender a se amar. Se amar, palavras tão simples mas tão difíceis de por em prática…

   "Chewing Gum" trabalha em torno disso. Não, não vou citar o enredo da menina negra de família cristã, que todos os sites de entretenimento focam. Não vejo apenas a rigidez de uma criação cristã e a comédia por trás disso.
Tracey Gordon tenta o tempo todo se adequar á padrões físicos tão ditados pela mídia.

Durante o drama, ela coloca peruca de cabelos lisos, lentes de contatos claras e até muda todo o seu comportamento apenas para ser desejada por um homem. Seu noivo, que professa a mesma fé que a sua, porém guarda um segredo que influencia todo o seu relacionamento (não vou dar spoiler, desculpa), e reproduz um comportamento machista tão julgado pelas feministas: culpa a Tracey por buscar com tanta avidez a possibilidade de ser desejada sexualmente.

   Me fez refletir no quanto mulheres modificam seu próprio corpo apenas pra se encaixar em um padrão ilusório. Veja bem, vou repetir, ela põem uma peruca lisa e loira, e usa lentes de contato claras em dado momento do drama, apenas pra ser desejada.

Claro tudo isso é retratado de forma cômica, deixamos a seriedade para as novelas. E isso não é uma crítica a forma retratada pela série (rs), pois prezo pelo bom humor, e levar tudo a sério nos adoece. É necessário por uma pitada de piada em certos lugares a certas horas (tudo tem seu limite e seu momento), e nessa série o humor respeitoso e a seriedade dos assuntos tratados se encaixam perfeitamente.

   Claro, a série não deixa de tratar do racismo. Assunto chato, eu sei. Eu como negra, as vezes quero ter uma pausa desse assunto, mas isso é algo impossível, já que o racismo não dá pausa pra mim. Pausa para o momento chato. Sim, vou repetir a palavra “pausa” várias vezes, porque este texto não é acadêmico então posso me dar alguns luxos.

Penso que não há a menor possibilidade na atual conjectura política que o mundo vive, tratar de dramas envolvendo protagonistas negros, sem tratar de racismo. São assuntos interligados, e que devem ser refletidos e expostos em narrativas. Não pode ser ignorado, por fazer parte do mundo do afrodescendente. Não foi diferente com Chewing Gum. A protagonista e os personagens são retratados lidando com seus problemas pessoais e diários, tocando suas vidas, e vivenciando suas experiências, alheios ao racismo. Tocar a vida ciente do quanto uma estrutura influencia todas as suas decisões, não é fácil. Mas é possível.

   O foco principal de toda a série: a virgindade. Um hímen. A competição entre as irmãs, pra descobrir como é o sexo julgado pela religião tão rígida. É engraçado como em pleno século 21, o tabu da virgindade feminina ainda seja objeto de discussão em muitas famílias. Religiões vangloriam algo que sempre foi cobrado das mulheres. Não vou julgar. Cada um sabe da realidade que vive. Eu sei que na minha realidade, cresci aprendendo a diferenciar mulheres virgens de não virgens. A entregar a “flor” apenas para o marido. Liberdade sexual feminina ainda tem que ser discutida, mulheres. Até as mais conservadoras.

  Tracey se vê ali, “pagando” as consequências de apenas tentar descobrir quais prazeres seu próprio corpo pode proporcionar. Desejar se conhecer melhor, e ter que lidar com o julgamento de sua própria família, equilibrar o religioso, o moralismo e o próprio prazer. Isso infelizmente ainda é a realidade de muitas mulheres no mundo.
   
Motivos para assistir Chewing Gum? A começar pela atriz principal. Michaela Coel. Linda e talentosa, tem se tornado uma revelação inglesa, por se dedicar tanto a seus trabalhos. Michaela chamou a atenção este ano, por um abuso sexual sofrido nas dependências de onde ocorre as gravações (não foi por funcionários), e a forma como a empresa lidou tão bem com todo o ocorrido. (Leia sobre).

Sempre tão consciente da forma na qual a sua série atinge a sociedade, e seu público-alvo, como produtora, trabalha em cima de temas polêmicos e não abre mão deste impacto social. Suas participações em Black Mirror expõem seu profissionalismo, e sua capacidade em interpretar personagens distintos.         Aliás, também vale a pena ver Black Mirror , mas isso é tema pra outra resenha.

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