CRÔNICA - Vida de Escritor por Angela Ramalho

Olá! :)
Como eu disse no mês passado, a cada último dia do mês, eu vou postar aqui uma crônica. 
A crônica de hoje foi escrita pela Angela Ramalho. Entre suas obras está o livro De Abraços & Cheiros. 
Confiram sua crônica: 
Vida de Escritor

Escrever  é um ato de coragem. Eu diria isso e acrescentaria: escrever é para os  fortes!  Pessoas fracas, que não perseveram e que costumam recuar ao  primeiro obstáculo, não deveriam escrever, muito menos publicar. 
A  princípio, alguém perguntaria: escrever para que, se ninguém lê?  E  isso é uma verdade que, ao mesmo tempo, nos remete a um paradoxo: a  produção editorial brasileira somente em 2010, segundo dados da Câmara  Brasileira do Livro, totalizou 55 mil títulos, o equivalente a 210 obras  por dia útil, em todos os gêneros. Para onde vão esses livros? 

Os  meus estão aqui, enquanto eu engendro mil e uma estratégias para que  cheguem aos leitores. Leitores que nem são meus ainda, mas que terei que  conquistar.  Esse é o maior desafio de quem publica um livro e por  isso, requer coragem. 

O  camarada tem que ser muito “macho” como dizia meu pai, para deixar  registrado num livro o seu pensamento sobre seja lá o que for. Sempre  haverá alguém disposto a discordar, achar aquilo piegas ou ficar tecendo  considerações sobre o porquê do autor se pronunciar desta ou daquela  forma, em que momento e em que circunstâncias aquilo aconteceu. Assim  como nas novelas confundem personagem e ator, na escrita confundem o  autor e sua obra. 
Acham  que o texto é autobiográfico, que é real, que você viveu linha por  linha do que está escrito. Tenho alguns poemas classificados como  eróticos e/ou sensuais e já ouvi muitos comentários desse tipo, com ar  de admiração e até certa malícia: Nossa você fez isso? Você fez aquilo? Curiosamente, o texto se referia à leitura de uma reportagem estampada numa revista masculina. Outros questionam: para quem você escreveu isso? 

Não  passa pela cabeça de certas pessoas que nem sempre falamos sobre nós,  sobre o que vivemos ou fazemos. Nossa imaginação é quem vai guiar o que  escrevemos e com ela seguimos rotas inesperadas!

Matamos  muitos leões por dia, sacrificamos momentos de folga, viajamos,  participamos de feiras literárias, antologias, concursos. Assumimos os  custos de toda essa movimentação cultural, não sem antes passar por uma verdadeira maratona, que  é a produção de um livro, desde você ter a ideia, escrever os textos,  selecioná-los, gravar em um arquivo ou CD, escolher a editora (e nesse  ponto temos que ser criteriosos, pois existem muitos picaretas  no mercado), solicitar orçamento, fechar o contrato, decidir quem vai  prefaciar, fazer a apresentação da obra, elaborar os textos das  dedicatórias, dos agradecimentos, das orelhas (direita e esquerda) e o  texto da contracapa. 

Importante  nessa etapa que o autor tenha uma biografia atualizada. Caso não  possua, deve elaborá-la, citando os livros que publicou, os prêmios  recebidos e os destaques de sua carreira. Acompanha a biografia uma foto  atualizada do autor. Procuro escolher uma foto em que eu esteja bem  produzida, logicamente. Mesmo assim, quando me veem no dia a dia, sem  produção e eu mostro o livro, ao ver a foto inevitavelmente ouço essa  frase: nossa, como você está diferente! Diferente é elogio? Se for, tá valendo! Mas se alguém pensa que a maratona acabou, que nada! Está só começando! 

Depois  do livro pronto, vem o lançamento e aí preparem o bolso, pois os custos  são altos. Dependendo do local que escolher (se for uma livraria da  moda, dessas bacanas que existem nos shoppings), só para fazer o  lançamento e deixar o livro à venda, você vai arcar com cerca de 40 a  50% do preço de capa. Definido o local, é hora de organizar o  cerimonial, providenciar convites, entregá-los, contratar buffet (caso  esteja nos seus planos servir um coquetel), providenciar uma atração  cultural, que pode ser canto, declamação de poesias ou alguém que toque  musica instrumental. 

Se  quiser que seu livro chegue ao consumidor final acompanhado de um  marcador de páginas, você deve contratar os serviços de uma gráfica e  arcar com mais essa despesa. Também deve providenciar a confecção de um  banner, em tamanho padrão, que ficará exposto no local do evento, com  pelo menos 15 dias de antecedência, para chamar a atenção do público em  geral, que pode até trazer mais gente para o seu evento, se o que você  divulgar for convincente.
Muitos  escritores se decepcionam com a quantidade de livros vendidos no dia do  lançamento. Nesse ponto não é bom criar muitas expectativas. Tem muita  gente que comparece, serve-se do buffet, te abraça, dá os parabéns e vai  embora. Demonstrou consideração por você? Demonstrou! Era obrigada a  comprar o livro? Não era! Então, porque a decepção? Numa outra  oportunidade essa pessoa poderá comprar seu livro e até indicá-lo a  alguém que se interesse por aquele gênero literário, caso ela não tenha  se interessado. Tem quem goste de poesia e quem não goste. Poesia vende?  Poesia não vende? São questionamentos que se ouvem aos montes. Eu digo:  sempre haverá espaço para o que é bom.

Vida  de escritor não é fácil. Para encarar tudo isso tem que ter paixão,  determinação e coragem. Viver é assumir riscos. O máximo que pode  acontecer é você perder tempo, dinheiro e ficar com estoque encalhado.  Mas se não tentar, nunca vai saber. 

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Angela Ramalho é escritora, tem três livros publicados e nas horas vagas, cuida com todo amor do seu blog Não sou Patrícia,mas sou Poeta! 

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