POEMA - Não há vagas

 Não acredito que poemas sirvam apenas para expressar o amor, acho que como qualquer outra forma de arte o poema pode servir para diversas funções, e uma delas é nos levar a pensar a respeito da sociedade em que vivemos de forma crítica, um belo exemplo disso é o poema Não há vagas, de Ferreira Gullar. O mesmo é um dos meu favoritos, justamente por quebrar esse paradigma de que poemas tem de falar apenas de amor.

Não há vagas - Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: 
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede

nem cheira.




 Resolvi fazer uma rápida pesquisa no youtube e encontrei um vídeo bastante interessante, trazendo o mesmo poema recitado por alguém (que não sei informar) com uma voz que se encaixa muito bem com o peso que este poema carrega. O vídeo se encontra abaixo:

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